Terra
Entraram
pela floresta matinal e caminharam descalços sobre o musgo. A luz era mais tenra
e primitiva que a da planície, emprestada das folhas e dos troncos, devolvida
numa passiva e alheia generosidade natural, desde sempre. Os galhos quebraram
com o mesmo som crepitante dos Primeiros dias, as folhas sibilaram com a mesma
indiferente flexibilidade dos amantes. Tudo era a mesma encenação repetida sem
fastio, e apenas no olhar dos dois pareciam ter-se acendido astros que nunca
antes viram. Tudo, para eles, era novo, excitante, temível, porque tudo neles
era velho, distorcido e arruinado. Durante noites infindas dormiram sob uma
tenda de folhas largas, numa floresta onde não chovia, durante dias andaram com
bastões nas mãos a atacar a apatia dos fetos, numa floresta onde não havia
feras. Mas os dias passaram, as noites passaram, e as coisas deixaram de ser um
reflexo do espelho quebrado da cidade que ambos traziam nos olhos. E
lentamente, como se na Memória a vida se convertesse alquimicamente em fábula,
começaram a dormir ao relento, pouparam os fetos, e sem receio, habitaram um
mundo novo.
No centro da floresta havia uma
clareira delicada, tão nítida que parecia pressentida em todos os que
pronunciam o nome “clareira”. Era um local como os que existem em todos os
homens, que pertencem à grande imaginação-rede humana, talvez herdada da mãe
negra que atravessou a península ou resgatada de um local muito anterior,
intuído desde Atenas. A relva, as flores e a sombra tinham uma implícita
justeza de forma, a luz revelava um novo tom de calma a cada hora do dia, e a
brisa nunca deixava o calor ser doloroso. A um canto, como se não precisasse
ser descrito e todos o soubessem, havia um regato gorgeante como o do poema.
Tudo ali era fresco, tudo era esperançoso. Aproximaram-se ambos do centro, e
baixaram-se para colher margaridas. Durante alguns anos foi ali a sua casa, e o
fogo, tão diferente dos incêndios de betão, era doce e natural.
O
Tempo decorria numa concórdia sem revolta, e nada havia contra o que lutar. Um
apanhava a lenha para a fogueira nocturna, outro procurava frutos e raízes, um
fazia colares com botões de ouro, o outro desenhava formas antigas nas pedras
junto ao regato. Ambos viveram apaziguados até que, dentro dele, as coisas
começaram a parecer demasiado compostas. Apesar da eterna trégua da clareira, dentro
dos dois tiniam ecos longínquos, ameaças de um passado de fumo e de um futuro
de sangue. Mas nada naquela luz, naquela água, naquela calma sugeria essa
possibilidade, e ele achava que aquele som fremente não era uma ameaça, mas
talvez o clamor de um Tempo mais impetuoso, mais digno, onde a sua juventude poderia
expandir a vitalidade! Então, com um
ritmo mais frenético que o da clareira, o lugar que o Outro tomava na relva,
para dormir, começou a parecer-lhe mais confortável; a tarefa de colher fruta
começou a soar-lhe mais indigna que a de apanhar lenha; a mania que o Outro
tinha de subir aos ramos, de manhã, para, como os pássaros, lançar clamores ao
dia, parecia-lhe uma ofensa à forma como ele entendia a manhã e uma provocação
ruidosa que não precisava tolerar! E então, como se o tédio e o desdém empurrassem
uma tumba, ouviu-se um estalido nas profundezas da sua memória e, de novo, o
betume espesso do Passado começou a exudar, borbulhante, enquanto que ao
ouvido, gerações de cidadãos lhe murmuravam, hipnóticas, coisas de honra e
orgulho. E sedento, partiu, sozinho.