terça-feira, 7 de abril de 2015

A Eterna Invenção do Círculo

Deixo-vos o primeiro capítulo de um pequeno conto que escrevi há alguns meses.


Zero graus
Olharam ambos para trás e, da cidade, já nem o fumo tentava escapar. Persistia apenas a desolação da beleza cinzenta que há nas ruínas, depois de nelas já não existir a novidade, apenas o Tempo. O céu aproximava-se do topo dos escombros, esticava-se para tocar os prédios esboroados e, de novo, parecia reconhecer a irmandade da pedra, da madeira e do carvão, há tanto perdidos dentro de outros nomes…
Já nenhum se lembrava qual deles começara o fogo, qual correra da poltrona onde lia Poesia: ambos ansiavam por redenção e retorno. Durante tanto tempo as chamas haviam reaparecido dos becos para enfurecer o cimento, e durante tantos dias o céu foi encoberto!... tantos que já nem as preces atravessavam o breu que rebentava como pus, com as explosões e as brasas…tanto tempo que todas as mãos estavam escuras, e nenhuma sabia já se nela haviam estado versos distraídos ou fósforos frios.

Ambos olharam a inevitabilidade do mundo natural a reaver a terra, tomada há muito tempo em nome de nomes, de cores, de títulos e de mentiras ditas como se houvesse algo mais misterioso no mundo que ele mesmo, como se mostra. Do topo da colina nenhum deles se recordava ou queria recordar qual o local onde ficara a sua casa, em que metade da grande cidade, tão pequena para nela haver metades…por isso olharam, demoradamente, e nenhum deles temeu quebrar alguma lei, se é que ainda alguma lei poderia redimir-se, fora da cidade. Olharam durante dias, noites e manhãs gloriosas de luz nova. E apenas porque o Futuro ainda tinha memória, partiram.

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