Zero
graus
Olharam
ambos para trás e, da cidade, já nem o fumo tentava escapar. Persistia apenas a
desolação da beleza cinzenta que há nas ruínas, depois de nelas já não existir
a novidade, apenas o Tempo. O céu aproximava-se do topo dos escombros,
esticava-se para tocar os prédios esboroados e, de novo, parecia reconhecer a
irmandade da pedra, da madeira e do carvão, há tanto perdidos dentro de outros
nomes…
Já
nenhum se lembrava qual deles começara o fogo, qual correra da poltrona onde
lia Poesia: ambos ansiavam por redenção e retorno. Durante tanto tempo as
chamas haviam reaparecido dos becos para enfurecer o cimento, e durante tantos
dias o céu foi encoberto!... tantos que já nem as preces atravessavam o breu
que rebentava como pus, com as explosões e as brasas…tanto tempo que todas as
mãos estavam escuras, e nenhuma sabia já se nela haviam estado versos
distraídos ou fósforos frios.
Ambos
olharam a inevitabilidade do mundo natural a reaver a terra, tomada há muito
tempo em nome de nomes, de cores, de títulos e de mentiras ditas como se
houvesse algo mais misterioso no mundo que ele mesmo, como se mostra. Do topo
da colina nenhum deles se recordava ou queria recordar qual o local onde ficara
a sua casa, em que metade da grande cidade, tão pequena para nela haver
metades…por isso olharam, demoradamente, e nenhum deles temeu quebrar alguma
lei, se é que ainda alguma lei poderia redimir-se, fora da cidade. Olharam durante
dias, noites e manhãs gloriosas de luz nova. E apenas porque o Futuro ainda
tinha memória, partiram.
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