Arrepiou-o. Seus olhos desorbitaram
ao ver. Hirto de estupefacção a olhá-lo nos olhos. Eram iguais. Iguaizinhos.
Mas tinham-nos tornado diferentes. A política. A religião. O regime. A
sociedade. Tudo resumimos, porque bem nos fica, ao dizer que foi a vida, a
sociedade e as circunstancias. Frente a frente. À noite. Numa praça velha. Dois
homens. Um chegará a casa e deita-se. Com mulher e filho. O outro dormirá na
praça. Um rei a cavalo em bronze olha o de cima. Ostentando a frase: “Rei de
Portugal pela graça de Deus”. Escrita na pedra que o suporta. Leva a mão ao
saco e oferece um cobertor. Queria mesmo um rádio. Respondeu-lhe Victor. Sim,
perguntou-lhe o nome. No próximo mês trago-lhe um rádio, prometo. Prometeu mesmo.
Não sei se no próximo mês cá estou, vou ao médico e talvez lá fique. Não fez
boa cara. Vai correr bem. Disse-lhe. Queria mesmo um rádio para ouvir à noite.
Prometeu com juras. Faz-me companhia. Voltou a prometer. Nessa manhã a internet
tinha falhado em sua casa. Porra, somos desiguais! Fizeram-nos desiguais. E nós
deixámos. Sim, deixámos! Todos!
Eduardo, gostaria de entender a relação dos dois homens, eram iguais na humanidade? Ou tinham algum laço de sangue. Gosto da tua "perturbação" sobre a relatividade do amanhã para quem tem poucas opções..
ResponderExcluirGabriela, este um excerto um relato - ou discrição - de uma noite que passei a fazer voluntariado na baixa de Lisboa. Queria testar esta voz "indirecta" - diálogos, pensamento e narrativa no mesmo corpo .
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