segunda-feira, 13 de abril de 2015

Segundo capítulo do conto, camaradas!

Terra
Entraram pela floresta matinal e caminharam descalços sobre o musgo. A luz era mais tenra e primitiva que a da planície, emprestada das folhas e dos troncos, devolvida numa passiva e alheia generosidade natural, desde sempre. Os galhos quebraram com o mesmo som crepitante dos Primeiros dias, as folhas sibilaram com a mesma indiferente flexibilidade dos amantes. Tudo era a mesma encenação repetida sem fastio, e apenas no olhar dos dois pareciam ter-se acendido astros que nunca antes viram. Tudo, para eles, era novo, excitante, temível, porque tudo neles era velho, distorcido e arruinado. Durante noites infindas dormiram sob uma tenda de folhas largas, numa floresta onde não chovia, durante dias andaram com bastões nas mãos a atacar a apatia dos fetos, numa floresta onde não havia feras. Mas os dias passaram, as noites passaram, e as coisas deixaram de ser um reflexo do espelho quebrado da cidade que ambos traziam nos olhos. E lentamente, como se na Memória a vida se convertesse alquimicamente em fábula, começaram a dormir ao relento, pouparam os fetos, e sem receio, habitaram um mundo novo.
            No centro da floresta havia uma clareira delicada, tão nítida que parecia pressentida em todos os que pronunciam o nome “clareira”. Era um local como os que existem em todos os homens, que pertencem à grande imaginação-rede humana, talvez herdada da mãe negra que atravessou a península ou resgatada de um local muito anterior, intuído desde Atenas. A relva, as flores e a sombra tinham uma implícita justeza de forma, a luz revelava um novo tom de calma a cada hora do dia, e a brisa nunca deixava o calor ser doloroso. A um canto, como se não precisasse ser descrito e todos o soubessem, havia um regato gorgeante como o do poema. Tudo ali era fresco, tudo era esperançoso. Aproximaram-se ambos do centro, e baixaram-se para colher margaridas. Durante alguns anos foi ali a sua casa, e o fogo, tão diferente dos incêndios de betão, era doce e natural.

O Tempo decorria numa concórdia sem revolta, e nada havia contra o que lutar. Um apanhava a lenha para a fogueira nocturna, outro procurava frutos e raízes, um fazia colares com botões de ouro, o outro desenhava formas antigas nas pedras junto ao regato. Ambos viveram apaziguados até que, dentro dele, as coisas começaram a parecer demasiado compostas. Apesar da eterna trégua da clareira, dentro dos dois tiniam ecos longínquos, ameaças de um passado de fumo e de um futuro de sangue. Mas nada naquela luz, naquela água, naquela calma sugeria essa possibilidade, e ele achava que aquele som fremente não era uma ameaça, mas talvez o clamor de um Tempo mais impetuoso, mais digno, onde a sua juventude poderia expandir a vitalidade!  Então, com um ritmo mais frenético que o da clareira, o lugar que o Outro tomava na relva, para dormir, começou a parecer-lhe mais confortável; a tarefa de colher fruta começou a soar-lhe mais indigna que a de apanhar lenha; a mania que o Outro tinha de subir aos ramos, de manhã, para, como os pássaros, lançar clamores ao dia, parecia-lhe uma ofensa à forma como ele entendia a manhã e uma provocação ruidosa que não precisava tolerar! E então, como se o tédio e o desdém empurrassem uma tumba, ouviu-se um estalido nas profundezas da sua memória e, de novo, o betume espesso do Passado começou a exudar, borbulhante, enquanto que ao ouvido, gerações de cidadãos lhe murmuravam, hipnóticas, coisas de honra e orgulho. E sedento, partiu, sozinho.

Um comentário:

  1. Este comentário já vai fora de tempo. Mas sinto aquela vontade de continuar a ler.
    Camarada de advérbio de modo e lugar, onde está a continuação? O que está leva para aquela memória arcaica de um tempo distante, bíblico, quase arqueológico. Gostava de ver a volta que vais dar a este desafio de um despertar ou perda de inocência para onde as personagens parecem caminhar.

    Abraço,
    PR

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